Deixar ir sem deixar de ser
De tempos em tempos, faz-se necessário despedir-se de versões de nós que já não fazem sentido, para seguirmos amadurecendo e nos aproximando de quem estamos nos tornando. Afinal, viver é estar em movimento.
Atendo muitos jovens adultos que atravessam um momento de transição: aos poucos, os padrões conhecidos e familiares deixam de ser a principal referência, e surge a necessidade de encontrar uma maneira própria de se posicionar no mundo.
Amadurecer não significa tornar-se uma versão perfeita de si mesmo. Significa desenvolver a capacidade de atravessar perdas, renunciar a antigas formas de existir e abrir espaço para que novas maneiras de ser e estar no mundo possam surgir.
Todo crescimento implica algum trabalho de luto. Não apenas diante da morte, mas também diante das expectativas que não se concretizaram, das relações que se transformaram e das versões de nós mesmos que, em algum momento, já não puderam continuar.
É comum desejarmos que as mudanças aconteçam sem dor. Mas toda transformação envolve algum grau de despedida. A transformação psíquica não elimina a falta nem nos poupa das perdas; ela pode nos ajudar a elaborar o que foi vivido, atribuir novos sentidos à própria história e seguir adiante sem permanecer aprisionados ao que já não somos.
Talvez amadurecer seja justamente isso: descobrir que é possível deixar ir sem deixar de ser.
O que você precisou deixar para trás para abrir espaço para quem está se tornando?
Texto publicado originalmente no Instagram, em 11 de agosto de 2026.